Na manhã desta terça-feira, 24, a Câmara Municipal de Campina Grande abriu os trabalhos legislativos de 2026 após o recesso e a manutenção da Casa. Como manda a tradição, o prefeito Bruno Cunha Lima subiu à tribuna para apresentar o balanço do ano e projetar o futuro.
O discurso foi otimista. Tão otimista que parecia roteiro de fanfic. Na narrativa do gestor, 2025 foi “um ano de conquistas, avanços e desafios vencidos”. Faltou combinar com a realidade da população.
Na Campina descrita pelo Cunha Lima, os problemas são apenas ciclos naturais. Na cidade real, aposentados, servidores e prestadores enfrentaram atrasos salariais, muitos atravessaram as festas de fim de ano sem receber. A promessa é resolver até abril. O calendário dirá se será solução concreta ou ironia involuntária.
Bruno falou em prenúncios promissores para 2026. Mas quais sinais a população tem visto? Obras que começam midiáticas e seguem em ritmo lento, crise persistente na saúde, relatos de falta de medicamentos e insumos, problemas no ISEA, fornecedores pressionando por pagamento, veículos bloqueados por dívidas administrativas.
Na prática, 2025 deixou marcas mais profundas do que o discurso permite admitir. Campina viveu atrasos nunca vistos antes. Salários ficaram pendentes por meses, fornecedores aguardaram pagamento sem previsão, carros foram bloqueados em plena via pública por falta de quitação contratual. Instalou-se uma crise ambiental que ultrapassou os limites do município, o Açude Velho secou, e o Brasil assistiu a toneladas de peixes mortos e à fedentina que tomou conta do cartão-postal da cidade.
O atraso salarial trouxe consequências que vão além das planilhas. Vieram a ansiedade, a depressão e o adoecimento emocional. Muitos servidores relatam ter recorrido a agiotas para garantir o básico dentro de casa. Quando o salário finalmente cai, já não cobre os juros das dívidas acumuladas. Essa conta a gestão não paga e, certamente, não entra no script.
Quando o assunto é saúde, o prefeito classifica os problemas como cíclicos. A palavra é técnica, mas não alivia o drama de quem depende do sistema e encontra prateleiras vazias.
No fantástico mundo apresentado da tribuna, as obras são vitrines de progresso. Na rua, moradores aguardam conclusão e qualidade. A Feira Central, o Canal do Bodocongó, avenidas anunciadas como estruturantes, tudo aparece como símbolo de transformação apesar de algumas já estarem virando pó. Mas concreto não paga salário atrasado, não enche dispenda, nem substitui medicamento em falta.
Quando as crises ganham força, a crítica recorrente é que o prefeito demora a aparecer. Foi assim no episódio do Açude Velho, que expôs a cidade nacionalmente. Ainda assim, no discurso, reafirmou que não foge dos problemas. Sem dúvida foi um dos pontos altos da fanfic.
E claro, não ia deixar de terceirizar o problema. A narrativa de que parte das dificuldades atuais decorre de gestões passadas ou de responsabilidades de outros entes, como o governo estadual. O prefeito falou em concurso público, em avanços administrativos e em preparar o terreno para 2026. É ano eleitoral, e organizar a vitrine tornou-se prioridade… tem primeira dama que precisa ser eleita.
A Campina do discurso é gigante, organizada, resiliente. A Campina das ruas enfrenta atrasos, inseguranças e serviços pressionados. Entre a fantasia e a realidade existe uma população que não pode viver de roteiro, mas a gestão parece viver.
Se 2025 foi, como disse o prefeito, o prenúncio de 2026, que o próximo capítulo troque a ficção pela realidade, porque fora do fantástico mundo de Bruno o campinense não vive em cenário de Hollywood, vive na realidade dura de quem espera o básico funcionar.





























