Uma criança de 4 anos, diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA), teria sido perfurada na cabeça com uma seringa com agulha por uma professora dentro de uma creche municipal de Monteiro, no Cariri da Paraíba. O episódio teria acontecido em 7 de julho, mas, segundo os pais, a família só foi comunicada pela unidade de ensino em 3 de agosto, quase um mês depois.
O caso foi levado à Polícia Civil e também é investigado pela Prefeitura de Monteiro por meio de um Processo Administrativo Disciplinar (PAD). Segundo documentos apresentados à família, cuidadoras teriam presenciado o momento em que a professora teria segurado o menino de forma brusca e utilizado uma seringa para perfurar a cabeça da criança.
Ainda conforme o registro da ocorrência, o menino teria chorado e apresentado sangramento na cabeça. Após o episódio, a professora teria guardado a seringa, limpado o sangue com papel higiênico e perguntado às cuidadoras se elas haviam visto onde a criança teria batido a cabeça.
A professora nega ter furado o menino. No relatório da ocorrência, segundo a família, ela afirmou que apenas teria mencionado, em tom de ameaça, que pegaria uma seringa para repreender a criança. Ainda de acordo com a versão atribuída à professora, depois ela teria percebido que o menino estava com a cabeça sangrando e feito a limpeza do local.
A família afirma que só tomou conhecimento dos detalhes do episódio semanas depois. A mãe, Jéssica Lima, contou que o filho foi diagnosticado com autismo aos 1 ano e 10 meses e que, antes de saber do caso, já havia percebido mudanças no comportamento da criança.
Segundo ela, o menino passou a apresentar comportamento mais agressivo entre abril e maio. Por isso, quando foi chamada para uma reunião na creche, em 3 de agosto, acreditava que a conversa seria relacionada ao comportamento do filho.
Conforme documento da própria unidade, a reunião ocorreu no dia 3 de agosto. Jéssica afirma que os responsáveis foram informados sobre a abertura de um processo administrativo e receberam a oferta de acompanhamento psicológico, mas que os detalhes sobre o episódio só foram conhecidos posteriormente, após a família ter acesso ao relatório da ocorrência.
“Então a creche só nos comunicou com quase 1 mês do acontecido. Nessa reunião foi dito que foi aberto um processo administrativo, que qualquer coisa a gente poderia contar com eles e ofereceram psicólogo, só que naquele dia eu não estava raciocinando direito. Também nos contaram de forma superficial, só soube dos detalhes quando peguei o relatório”, relatou.
No dia seguinte à reunião, os pais retornaram à creche e informaram que haviam gravado uma conversa com o filho em casa. Segundo o relato apresentado pela família no processo administrativo, a criança teria contado que a professora levou uma seringa para a sala e teria utilizado o objeto nela. Ao ser questionado sobre onde teria ocorrido a aplicação, o menino teria apontado para a cabeça.
Em outro momento da conversa, ainda segundo os pais, a criança teria repetido: “Muitas agulhas, muitas agulhas”.
Os responsáveis solicitaram à creche cópias dos relatórios e dos demais documentos encaminhados à Secretaria Municipal de Educação (SEDUC).
A mãe afirma que o comportamento do filho mudou após o período em que o episódio teria ocorrido. Segundo Jéssica, desde o início de agosto a criança estaria mais calma.
“Na verdade nós vínhamos percebendo um comportamento muito agressivo nele já tinha um certo tempo. Eu não sei exatamente quando começou, mas acho que meados de abril/maio, e foi por isso que a gente achou que a reunião se tratava do comportamento dele. Mas do começo de agosto pra cá ele já mudou bastante, está bem mais calmo”, afirmou.
Jéssica também disse que passou a buscar informações sobre as providências adotadas pelas autoridades. “Eu que fui atrás, tudo eu indo atrás”, relatou. Segundo ela, a família procurou a Polícia Civil, o Conselho Tutelar e o Ministério Público.
O boletim de ocorrência foi registrado pela mãe na Delegacia de Monteiro em 7 de agosto. A certidão do registro, à qual a reportagem teve acesso, classifica o caso como maus-tratos. No documento, a mãe relatou o sangramento na cabeça do filho, as informações repassadas pela creche e o conteúdo da conversa gravada com a criança.
Além da investigação policial, a Prefeitura de Monteiro instaurou um Processo Administrativo Disciplinar para apurar o episódio. Em 11 de setembro, os pais prestaram depoimento à Comissão Permanente de Processo Administrativo Disciplinar (CPPAD).
Durante o depoimento, os responsáveis questionaram a demora para serem informados sobre o que teria acontecido. Segundo eles, a dimensão do caso só ficou clara após o acesso ao relatório elaborado pela unidade de ensino.
A mãe também relatou que, durante a reunião realizada na creche, recebeu da advogada da escola a informação de que a professora utilizaria uma seringa para amedrontar crianças e fazê-las obedecer. Segundo Jéssica, essa informação não consta no relatório da ocorrência apresentado à família, que registra apenas o episódio envolvendo seu filho.





























