A possibilidade de privatização do Banco do Brasil voltou ao debate após declarações de Daniella Marques, coordenadora do plano econômico do senador Flávio Bolsonaro (PL). Durante uma reunião com empresários do grupo Esfera Brasil, em São Paulo, no dia 14 de setembro, ela afirmou que mais de 20 empresas estatais poderão ser privatizadas em um eventual governo do parlamentar e mencionou o Banco do Brasil entre as possibilidades.
A declaração provocou reação de representantes dos trabalhadores da instituição. A Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT) alerta que uma eventual privatização pode resultar em demissões, redução de direitos trabalhistas e mudanças nos benefícios oferecidos aos funcionários, incluindo os vinculados à Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil (Cassi) e à Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil (Previ).
Para Juvandia Moreira, presidenta da Contraf-CUT, a venda do banco também pode comprometer o financiamento de atividades econômicas e programas sociais.
“O que causa indignação é o forte interesse de privatizar uma empresa com um papel social tão importante para a agricultura, inclusive para o agro, o Desenrola, Move Brasil, Consignado do Trabalhador, todos esses programas fundamentais para o desenvolvimento do país”, afirmou.
A dirigente destacou ainda a importância histórica da instituição para o financiamento agrícola brasileiro. “O BB foi, por décadas, o único financiador da agricultura. E, hoje, é o maior financiador deste setor. Sem o BB, o Brasil não seria, atualmente, um dos maiores produtores de alimentos do mundo”, acrescentou.
Em fevereiro, durante a CEO Conference 2026, evento organizado pelo BTG Pactual, Flávio Bolsonaro declarou que pretende privatizar 95% das empresas estatais caso seja eleito presidente.
Sindicato aponta risco de demissões e mudanças nos benefícios
A Contraf-CUT argumenta que a transferência do Banco do Brasil para a iniciativa privada pode provocar uma reestruturação da instituição, com fechamento de agências, redução do quadro de funcionários e diminuição de salários. A entidade também demonstra preocupação com a manutenção da Cassi e da Previ, que atendem, respectivamente, à assistência à saúde e à previdência complementar dos funcionários.
“Antes de votar, o funcionário do BB precisa pensar no seu futuro e no de sua família”, afirmou Juvandia Moreira. Segundo ela, empresas privatizadas podem adotar medidas para reduzir despesas, entre elas cortes de pessoal e mudanças nos benefícios oferecidos aos trabalhadores.
A dirigente citou a privatização da Eletrobras, concluída em 2022, como exemplo dos impactos que, na avaliação sindical, devem ser considerados no debate sobre a venda de empresas públicas.
Banco perdeu agências e postos de trabalho durante governo Bolsonaro
A preocupação com o emprego também está relacionada às mudanças ocorridas no Banco do Brasil durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Segundo dados apresentados pela Contraf-CUT, entre 2019 e 2022, foram fechadas 739 agências e eliminados 10.936 postos de trabalho.
No mesmo período, a participação do banco no crédito total do país caiu de 18,5% para 15,9%. No crédito rural, a fatia de mercado recuou de 57,7% para 52,1%, conforme os números divulgados pela entidade sindical.
Outro episódio envolvendo a instituição ocorreu em junho de 2020, quando um fundo ligado ao BTG Pactual comprou uma carteira de crédito do Banco do Brasil avaliada em R$ 2,9 bilhões por R$ 371 milhões. A Controladoria-Geral da União (CGU) apontou falta de planejamento e de justificativas mercadológicas para a operação.
Em abril de 2020, o então ministro da Economia, Paulo Guedes, também defendeu a privatização do banco durante uma reunião ministerial cuja gravação foi divulgada posteriormente pela Polícia Federal. “O Banco do Brasil é um caso pronto de privatização (…) Então, tem que vender essa porra logo”, declarou na ocasião.
Sindicato destaca papel social do banco
Além dos possíveis impactos sobre os trabalhadores, a Contraf-CUT alerta para as consequências de uma eventual privatização sobre o acesso ao crédito e o financiamento de setores da economia.
Em junho de 2026, a carteira de crédito expandida do Banco do Brasil alcançou R$ 1,3 trilhão, segundo os dados apresentados pela entidade. Desse total, R$ 421,6 bilhões correspondiam a operações de crédito para o agronegócio, enquanto R$ 431,5 bilhões estavam relacionados à carteira de negócios sustentáveis.
“Acabar com o BB é destruir um grande agente de desenvolvimento, que leva crédito para todo o país. Sem crédito, a economia não se sustenta, elimina empregos e diminui a renda das famílias”, afirmou Juvandia Moreira.
A coordenadora da Comissão de Empresa dos Funcionários do Banco do Brasil, Fernanda Lopes, também ressaltou a presença nacional da instituição e sua atuação em localidades onde, segundo ela, os bancos privados têm menor interesse em operar.
“Hoje o Banco do Brasil tem mais de 84 mil trabalhadoras e trabalhadores no seu quadro de trabalho, 51 mil postos de atendimento, com presença em mais de 93% dos municípios brasileiros, dando acesso a atendimento e recursos à população, onde os bancos privados e o mercado não querem atuar”, declarou.
Para Fernanda, a possibilidade de privatização exige atenção dos funcionários da ativa e aposentados, especialmente diante dos possíveis efeitos sobre empregos, direitos e benefícios.
As declarações de Daniella Marques e Flávio Bolsonaro colocaram a possibilidade de privatização entre os temas do debate econômico. Até o momento, as falas citadas indicam a intenção de promover privatizações em um eventual governo, mas não confirmam um plano definitivo para a venda do Banco do Brasil.





























