A eleição na Paraíba para os “desavisados”

A corrida pela cadeira de governador do estado da Paraíba encontra-se em um cenário de incerteza quanto ao candidato vencedor. Por ora, a única certeza é que haverá uma grande disputa. Atualmente, três pré-candidaturas competitivas estão postas: a do prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena (MDB); a do vice-governador do estado, Lucas Ribeiro (PP); e a do senador Efraim Filho (União). Outros nomes de peso, como o ex-deputado federal Pedro Cunha Lima (PSD) e o atual presidente da Assembleia Legislativa, Adriano Galdino (Republicanos), retiraram suas candidaturas, permanecendo na mesma posição: Pedro na oposição, com data marcada para anunciar o apoio à candidatura de Cícero Lucena, e Galdino na base governista.

Cícero Lucena vem liderando as pesquisas de intenção de voto desde que anunciou sua candidatura, consolidada após disputas internas no grupo governista, que optou pela candidatura de Lucas Ribeiro, ocasionando a sua saída do PP para o MDB. A liderança de Cícero pode ser atribuída à sua considerável experiência na política paraibana, tendo disputado diversas eleições ao longo das últimas décadas e sendo, portanto, um nome de prestígio no meio político, bastante conhecido e já testado nas urnas. Outro fator importante advém do controle da máquina pública do maior município e capital do estado, o que lhe oferece um arsenal para construir alianças e atrair forças políticas para seu projeto.

No entanto, é justamente nas vantagens de Cícero Lucena que também residem seus pontos fracos. Segundo a pesquisa do instituto Real Time Big Data, divulgada em dezembro de 2025, Cícero é o nome com maior rejeição entre os entrevistados. Naturalmente, uma carreira política tão longa acumula níveis elevados de rejeição, sobretudo entre o eleitorado mais jovem, que não se sente representado pelos atuais políticos e anseia por renovação. As críticas à sua gestão também contribuem para esse cenário, especialmente no que diz respeito à agenda ambiental e à sua relação com o setor da construção civil.

Logo em seguida, Lucas Ribeiro (PP) aparece com um perfil distinto de seu principal adversário, Cícero Lucena, não tendo disputado anteriormente cargos no Legislativo nem sido cabeça de chapa no Executivo. Sua primeira candidatura foi para vice-prefeito de Campina Grande, em 2020, cargo ao qual renunciou para concorrer à vice-governadoria em 2022, na chapa de João Azevêdo (PSB), que venceu as eleições. Assim, Lucas Ribeiro se encontra como uma figura relativamente recente na política e ainda pouco conhecida, o que pode lhe impor dificuldades tanto junto ao eleitorado mais velho quanto no próprio manejo da disputa eleitoral.

Ao mesmo tempo, e de modo inverso à situação de Cícero, as desvantagens de Lucas trazem consigo maiores possibilidades de crescimento, pois, na mesma pesquisa, seu nome apresenta a menor rejeição entre os pré-candidatos. O caso de Lucas contrasta com o de Pedro Cunha Lima, outro jovem político que, assim como ele, é membro de uma importante família da política paraibana. Embora Pedro empate com Lucas no limite da margem de erro na referida pesquisa quando seu nome é incluído, a rejeição à sua candidatura é 9% maior do que a de Lucas, sendo a segunda mais rejeitada no estado.

A combinação de baixa rejeição, elevado número de eleitores indecisos e controle da máquina pública estadual é uma receita que favorece significativamente uma possível arrancada de Lucas Ribeiro em seu projeto eleitoral. Isso porque, é importante lembrar, o atual governador João Azevêdo terá de se desincompatibilizar do cargo até abril para concorrer ao Senado, o que conferirá a Lucas Ribeiro a titularidade do governo do estado por aproximadamente oito meses até a eleição, enquanto Cícero Lucena deverá renunciar ao cargo de prefeito, deixando a prefeitura sob o comando de seu aliado e atual vice-prefeito, Leo Bezerra (PSB).

Já a candidatura do senador Efraim Filho aparenta ser mais estratégica do que propriamente voltada à vitória no pleito. Em um cenário no qual Cícero Lucena e Lucas Ribeiro disputam o papel de palanque do presidente Lula (PT) na Paraíba, Efraim se posiciona no sentido oposto. Ao romper com o governo federal, o candidato articula um palanque de oposição no estado, ao lado de Marcelo Queiroga (PL), ex-ministro da Saúde do governo Bolsonaro. Como na política não há vácuo de poder, o senador consegue, dessa forma, atrair para si o capital simbólico da oposição e, assim, fortalecer seu nome com vistas às eleições de 2030, uma vez que ainda dispõe de quatro anos de mandato no Senado e não depende dessa eleição para manter-se no jogo.

Existe, porém, um impasse na candidatura de Efraim Filho que esbarra diretamente na de Lucas Ribeiro, tendo em vista que ambos compõem a mesma federação, a União Progressista (UP). Segundo a Lei nº 14.208, de 2021, que regulamenta as federações partidárias, elas atuam como uma única legenda, não sendo permitidas múltiplas candidaturas para o mesmo cargo nem a composição de chapas distintas por partidos integrantes da mesma federação.

De acordo com a seção do estatuto da federação que trata das candidaturas majoritárias estaduais, especificamente o Art. 27, em casos de divergência na tomada de decisão, a deliberação das candidaturas deverá passar pelo crivo da direção nacional. Portanto, no cenário em que ambos, Lucas Ribeiro e Efraim Filho, permaneçam dispostos a disputar o governo do estado sob a mesma legenda, um dos dois necessariamente deverá mudar de partido. Há especulações de que Efraim poderia se candidatar pelo PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, enquanto Lucas Ribeiro poderia concorrer pelo PSB, partido do atual governador João Azevêdo.

Para além das pesquisas do momento, a eleição para o governo da Paraíba poderá ser definida pela combinação entre rejeição, capacidade de crescimento, uso da máquina pública e rearranjos partidários impostos pelas regras institucionais. Já é possível identificar tendências claras: Lucas Ribeiro desponta como o nome com maior chance de crescimento, Cícero Lucena carrega o peso de liderar com alta rejeição, e Efraim Filho atua estrategicamente para ocupar o espaço simbólico da oposição, ainda que isso signifique mirar mais em 2030 do que em 2026, podendo também negociar seu apoio caso não chegue ao segundo turno, com sinalizações recíprocas à Cicero Lucena. O jogo está em curso, e ele será decidido menos pelas intenções de voto atuais e mais pela capacidade de cada ator de transformar poder, tempo e alianças em vantagem eleitoral concreta.  

Por: Felipe Lopes, 23/01/2026

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