O recente aumento da tarifa de ônibus em João Pessoa recoloca no centro do debate um problema estrutural da mobilidade urbana no Brasil.
Com o reajuste para R$ 5,45, a capital paraibana passou a figurar entre as capitais com as tarifas mais altas do país, um dado que, por si só, deveria provocar reflexão das autoridades municipais.
Com a nova tarifa, um trabalhador que realiza duas viagens diárias, seis dias por semana, passa a gastar cerca de R$ 283 por mês apenas com transporte.
Considerando o salário mínimo de R$ 1.502, aproximadamente 19% da renda mensal é comprometida exclusivamente para ir e voltar do trabalho.
Trata-se de um percentual elevado, incompatível com a realidade de quem depende do transporte público para acessar o emprego, a escola e os serviços básicos. Na prática, a tarifa funciona como um imposto regressivo, que pesa mais justamente sobre quem tem menos renda.
A capital paraibana está entre as 10 capitais no ranking das tarifas mais altas do Brasil e chama atenção pela comparação com várias outras de maior porte. A cidade possui distâncias médias menores, trajetos mais curtos e uma malha urbana menos complexa do que grandes metrópoles brasileiras.
Essa desproporção no preço praticado, reforça a percepção de que o reajuste carece além de estudo técnico, um critério socialmente sensível, capaz de demonstrar por que o usuário pessoense deve arcar com um dos transportes urbanos mais caros do país. A elevação da tarifa em João Pessoa é sintoma de um modelo esgotado, que transfere quase todo o custo do transporte coletivo ao usuário.
É nesse contexto que a proposta da Tarifa Zero se apresenta como uma alternativa concreta e já testada em várias cidades brasileiras.
O governo federal acenou a disposição de discutir com o congresso a possibilidade de votação da Tarifa Zero em 2026, que terá impacto direto sobre cidades como João Pessoa, onde o custo do transporte já compromete parcela significativa da renda do trabalhador.
Associada a debates como o fim da escala 6×1, a medida pode representar um avanço concreto na valorização do trabalho e na redução das desigualdades urbanas.
Quando uma capital de porte médio, com distâncias menores, pratica uma tarifa elevada sem justificativa amplamente conhecida, fica evidente que a prefeitura está desconectada ao direito de ir e vir dos seus munícipes.
A mobilidade urbana deve deixar de ser tratada como mercadoria e passar a ser reconhecida como política social essencial.































