Um dos episódios mais emblemáticos da história política e urbana de Campina Grande ocorreu em 1988, durante a gestão do então prefeito Ronaldo Cunha Lima, quando houve uma tentativa de doação de parte do Açude Velho à iniciativa privada para a construção de um shopping center no centro da cidade. A iniciativa, apresentada à época como projeto de “modernização” e desenvolvimento econômico, foi barrada pela atuação direta e decisiva do então vereador Márcio Rocha, que liderou a resistência política e jurídica à privatização do principal cartão-postal da cidade.
As informações reunidas nesta reportagem constam do arquivo político e pessoal do ex-vereador Márcio Rocha, acervo que reúne documentos legislativos, artigos de opinião, registros de debates públicos e iniciativas parlamentares, atualmente utilizado como base para a organização do livro “O Médico dos Pés Descalços”.
Márcio Rocha exerceu mandatos consecutivos de vereador entre 1983 e 1997, inicialmente pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) e, posteriormente, pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB). Sua trajetória é reconhecida até hoje como uma das mais relevantes da história do Legislativo de Campina Grande e da Paraíba, marcada pela defesa intransigente do interesse público, dos direitos sociais, do patrimônio coletivo e das liberdades democráticas.
Origem familiar e formação política
Márcio Rocha é filho do comerciante e industrial gráfico Olímpio Rocha, empresário que atuou por mais de cinco décadas em Campina Grande, sendo proprietário da Papelaria Rocha e da Gráfica Rocha, com estabelecimentos na Rua João Pessoa e na Feira da Prata. As empresas tiveram papel relevante na economia local, gerando centenas de empregos diretos e indiretos ao longo de décadas e contribuindo para o desenvolvimento do comércio e do setor gráfico da cidade.
É filho também de Fátima Tarradt Rocha, filha do palestino José Tarradt, mulher reconhecida como verdadeira matriarca da família, dedicada dona de casa e figura de grande firmeza moral, que se dedicou integralmente à criação de dez filhos, exercendo influência decisiva na formação ética, política e humana de dezenas de netos e bisnetos.
A luta pelo Açude Velho
Em 1988, o projeto do shopping contou com acolhimento do Executivo municipal, que recebeu empresários, autorizou estudos técnicos e encaminhou a proposta à Câmara Municipal. No Legislativo, formou-se inicialmente maioria favorável à cessão do bem público.
Márcio Rocha, mesmo como vereador da base política do prefeito, da qual depois se afastou, denunciou publicamente que a proposta representava a privatização de um patrimônio histórico, ambiental e simbólico da cidade. Para além da oposição política, articulou e aprovou um projeto de lei que transformou o Açude Velho em patrimônio histórico do município, criando impedimento jurídico direto à sua doação, cessão ou alienação. A iniciativa legislativa foi decisiva para inviabilizar o empreendimento e preservar o Açude Velho como bem público.
O artigo de 1995 e a resposta a Ronaldo Cunha Lima
Um dos documentos centrais desse acervo é o artigo publicado em 1995 no Diário da Borborema, jornal do qual Márcio Rocha era articulista. No texto, preservado em seu arquivo pessoal, ele responde diretamente a declarações do ex-prefeito Ronaldo Cunha Lima, então senador, que afirmava que Campina Grande só não teve um shopping no Açude Velho por atuação isolada de “um vereador”.
No artigo, Márcio Rocha é categórico ao afirmar que a tentativa de construção do shopping só foi barrada pela ação direta e organizada, por ele capitaneada em conjunto com a minoria da Câmara Municipal, com apoio decisivo de setores da sociedade civil que se posicionaram contra a privatização do patrimônio público. O texto desmonta versões posteriores e registra que a derrota do projeto não foi circunstancial, mas resultado de enfrentamento político e iniciativa legislativa concreta.
Uma trajetória marcada por grandes lutas
A atuação de Márcio Rocha no episódio do Açude Velho integra um conjunto mais amplo de grandes lutas sociais e institucionais, amplamente documentadas em seus artigos e intervenções parlamentares. Entre elas, destacam-se:
• a defesa da Ocupação do bairro das Malvinas, em favor do direito à moradia;
• o enfrentamento ao grupo de extermínio “Mão Branca”, com denúncias públicas de execuções e violência institucional;
• a luta pela federalização do curso de Medicina, consolidando o curso na Universidade Federal da Paraíba;
• o combate às oligarquias campinenses e ao clientelismo político, na oposição às gestões de Cássio Cunha Lima e Félix Araújo;
• a defesa permanente do direito à saúde, com atuação direta como médico popular nas comunidades carentes.
Márcio Rocha também teve participação ativa na luta pela redemocratização do país, tendo liderado em Campina Grande o Comitê pelas Diretas Já, ainda na década de 1980, enfrentando os resquícios da ditadura militar e mobilizando a sociedade civil pela retomada do voto direto e das liberdades democráticas.
Atuação na saúde pública
Além da atuação parlamentar, Márcio Rocha teve papel central na estruturação de políticas públicas de saúde. Foi o primeiro diretor do Hospital Regional de Emergência de Campina Grande, unidade que posteriormente se transformou no Hospital de Trauma Dom Luiz Gonzaga Fernandes. Atuou também como diretor de Atenção à Saúde da Secretaria Municipal de Saúde, durante a gestão do prefeito Veneziano Vital do Rêgo, sendo responsável pela implantação e modernização do Programa de Saúde da Família (PSF) no município, chegando a assumir interinamente a Secretaria Municipal de Saúde.
Sua produção intelectual sempre esteve vinculada à luta pelos direitos humanos, inclusive em temas internacionais. Neto do palestino José Tarradt, Márcio Rocha sempre afirmou tratar a questão da Palestina não apenas como pauta geopolítica, mas como dimensão de sua própria história familiar, como descendente direto do povo palestino.
Memória, presente e livro
O resgate desse episódio histórico ganha atualidade diante da recente crise ambiental no Açude Velho, denunciada pelo advogado e professor Olímpio Rocha, filho de Márcio Rocha, ex-candidato a prefeito de Campina Grande e primeiro suplente de deputado estadual pelo PSOL, que cobrou providências das autoridades e denunciou o atual prefeito Bruno Cunha Lima por crime ambiental.
Atualmente, Márcio Rocha, médico do SUS e figura histórica da política campinense, não exerce funções na gestão pública, estando afastado da vida político-partidária e dedicado à família. É casado com a médica pediatra Luísa Marillac e pai de Olímpio Rocha, de Lívia Rocha, enfermeira do Governo do Distrito Federal, e de Tâmara Rocha, que atua no setor hoteleiro em Estocolmo, na Suécia, onde reside há alguns anos. É avô de Duda e Gabriel, filhos de Lívia, e de Marcinho, filho de Olímpio.
Como parte do esforço de preservação dessa memória política e intelectual, encontra-se em fase final de revisão o livro “O Médico dos Pés Descalços”, com previsão de lançamento para o mês de agosto, quando Márcio Rocha completará 68 anos de idade. A obra reunirá mais de 50 artigos de opinião, nos quais o autor trata de temas locais, nacionais e internacionais, da luta contra grupos de extermínio à defesa da redemocratização, do direito à moradia e à saúde às questões internacionais relacionadas aos direitos humanos.
O título do livro remete à sua atuação direta como médico popular nas comunidades carentes, característica que lhe rendeu a alcunha de “Médico dos Pés Descalços”, cunhada pelo poeta Zé Laurentino, autor de um cordel sobre sua vida e trajetória, que também integrará a publicação.
A história do Açude Velho evidencia que a defesa do patrimônio público é uma luta permanente, que atravessa gerações. Como sintetizam Belchior e Elis Regina, “ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”.


































